terça-feira, 9 de setembro de 2008

Baszczyn, Eduardo

carrego coisas pesadas e quase não mais flutuo. há tempos, navego sem encontrar portos pelo caminho. lugares onde se possa parar. descarregar as cargas amontoadas. atirar o que é sobra ao chão do cais. navego enquanto posso, sem conseguir me livrar da bagagem. das pedras dentro das malas. sabendo que a mudança foi com a embarcação e não com o mar. navego, sabendo que afundar é questão de tempo.

*

às vezes, tenho vontade que o mundo se transformasse em uma polaróide ao contrário. tudo em volta sumindo aos poucos. em segundos, apenas um borrão antes do nada

*

e, então, não há mais lugares para pousos. condenado a bater as asas para sempre, morro porque, agora, só se cultivam espinhos em todos os jardins

*

que você deveria saber que eu acabei apenas desenhando esses dois riscos nos meus punhos, sem coragem de pesar a mão sobre os meus braços e fazer cortes mais profundos. que você deveria saber que esses olhos vermelhos são por chorar, escondida no banheiro, sufocando os soluços com a mão, sentada sobre o chão gelado, evitando o espelho pra não ver minha cara com maquiagem borrada e lápis preto escorrido pelo rosto, como lágrima negra até o queixo. que você deveria saber que mesmo assim, sem forças, eu joguei aquelas flores mortas do vaso e saí pra comprar um dúzia de novas, brancas. e que, na volta, eu arranquei os sapatos e acelerei descalça querendo jogar o carro contra o poste e contra o muro e contra um monte de coisas que eu vi pelo caminho. que você deveria saber que eu passei a tarde toda gritando com a cabeça enfiada no travesseiro fazendo a voz sumir aos poucos. e que eu quebrei um copo na parede da sala, manchando aquele bege, cor de nada, com o vermelho do resto de vinho. que você deveria saber que eu saí no meio da chuva, pisando poças e parando sob as goteiras e pedindo pra que um raio, apenas um daqueles todos, me acertasse em cheio. eu achei que você deveria saber que eu achei que você deveria saber um monte de coisas, antes de me deixar. que eu mandei trocar as fechaduras da porta enquanto você dormia. achei que você deveria saber que com essa chave você não vai embora. que ela não serve pra mais nada. eu achei que deveria saber que agora você só sai daqui se for por essa janela. pulando, assim, como eu.

*

eu me arrebentei, assim, porque o nó era fraco. frouxo. mal dado. eu afundei, em segundos, porque no meu casco havia um buraco milimétrico por onde o mar entrou, aos poucos. inteiro. eu caí com o primeiro vento porque não havia tijolos. eu era construção mal feita. erguida na pressa. madeira com pregos mal batidos. fachada. eu derreti ao sol porque era de plástico. sumi no sopro porque era pó. eu me quebrei na primeira queda porque, por dentro, não havia mais nada. eu me sentia forte, sem saber que já era oco.

*

ele me fez atravessar o longo corredor, mas não escreveu que no final haveria uma porta para que eu fugisse. ele me fez escancarar a boca até o fim, mas esqueceu de me dar o grito.

*

(...)minha vida já era fruto bicado por passarinho. maçã cheia de bichos caída sobre a grama. ainda vivo, mas apodrecido. no meio do jardim, o buraco giganteco. é dentro dele que eu espero. me disseram que seria o único jeito. voltar a ser semente e começar tudo outra vez.

*

mas um dia, você pode ter certeza, o desequilíbrio irá atrapalhar essa sua destreza. interromper suas acrobacias. seus truques. manobras. um dia, esse seu número chegará ao fim, de repente. espetáculo encerrado, de uma hora para outra, pelas bolas coloridas espalhadas pelo chão. um dia, enquanto estiver recolhendo uma por uma, entre tantas vaias, você irá se arrepender. jurar nunca mais fazer malabarismos por tanto tempo com os sentimentos de quem já o aplaudiu.

*

se você não percebeu que os dois lados se juntavam, aos poucos, todos os dias, por que saiu antes? por que me disse que este era o nosso refúgio, sabendo que ele se tranformava a cada minuto? sabendo que um dia ele se fecharia, por completo. armadilha. por que prometeu ficar por perto se, no final, acabou me deixando ser engolido? sozinho. morto pelo que era flor e virou planta carnívora.

*

é o seu medo? por que, então, viver no meio se você pode escolher entre o céu e o inferno?

*


Talvez um dia eu seja uma pessoa mais equilibrada. Dessas que não se abalam tanto com os problemas. Que sabem administrar com inteligência a maioria das situações. Mas, por enquanto, confesso que não consigo. Basta uma coisa dar errado para estragar todas as outras. Um desequilíbrio literal. Imagino meu humor como uma pilha de latas em um corredor de supermercado. Estão todas lá: umas em cima das outras. Organizadas. Alinhadas. Aí vem uma criança teimosa e tira uma das latas de baixo. A do meio! E, em dois segundos, está tudo no chão. Era impossível que continuassem de pé sem aquela lata. Ando meio triste. Uma criança teimosa passou por aqui um dia desses e levou o que queria.
Tirou uma lata e foi embora. Sei que vou ficar bem. No fim, as coisas sempre se ajeitam. Mas dá um trabalho organizar tudo de novo! Ter de pegar lata por lata e empilhar outra vez... Uma a uma. Bem devagar. Até achar o tal do equilíbrio.

http://coisasdagaveta.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Amber Pacific

So why should I take your hand, when you can't promise happy endings?

da música Thoughts Before Me

terça-feira, 24 de junho de 2008

Burgess, Anthony

- Mas pelo menos somos obrigados a reconhecer que o Estado, tal como existe hoje no Ocidente livre, não evolui na direção imaginada por Orwell - temos liberdade para ler o quisermos, admirar a pornografia expostas nas ruas, comprar todo tipo de lixo plástico, fazer amor sem qualquer impedimento oficial. Vivemos chamando por mais liberdade e acabamos quase sempre por obtê-la. E, mesmo assim, o Estado sempre é visto como um monstro, especialmente pelos jovens.
- Ah, os jovens!

Retirados do livro 1985

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Gullar, Ferreira

A vida está
dentro da vida
em si mesma circunscrita
sem saída.

Nenhum riso
nem soluço
rompe
a barreira de barulhos.

A vasão
é para o nada.
Por conseguinte
não vasa.

*

(...)"não se preocupe pois tudo vai acabar mal"
dizia rindo,
"além do mais essa música é bonita pra caralho...
___________________________ou não!"
(...)

*

Gravura

Longe de mim
para além dos edifícios de Botafogo
___________________e da Tijuca
____________para além do Méier, de Madureira
_____________________ de Bangu
vencida a última casa na periferia do Rio
_____________________longe
___________para além dos espantosos rochedos
___________da serra das Araras
para além dos vales e campos cultivados
___________municípios e cidades
longe
longe de mim
___________no coração de São Paulo
___________dorme você a esta hora
___________(quatro e quinze da manhã)

___________com seus negros cabelos.

*

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
____abre-te agora ao sofrimento
____que é fruto dela
____e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
____que da alegria foste
__________________ao fundo
____e te perdeste nela
__________________e te achaste
__________________nessa perda
_____deixa que a dor se exerça agora
_____sem mentiras
_____nem desculpas
_______________e em tua carne vaporize
_______________toda ilusão

_____que a vida só consome
_____o que a alimenta.

Retirados do livro Barulhos

*

Não te aconselho o amor. O amor
é fácil e triste. Não se ama
no amor, senão
o seu próximo findar.
Eis o que somos: o nosso
tédio de ser.

(...)

Saber-se
fonte única de si
alucina.
______Sublime, pois, seria
suicidar-nos:
trairmos a nossa morte
para num sol que jamais somos
nos consumirmos.

*

Fui sempre o que mastigou a sua língua e a engoliu. O que apagou as manhãs e, à noite, os anúncios luminosos e, no verso, a música, para que apenas a sua carne, sangrenta pisada suja - a sua pobre carne o impusesse ao orgulho dos homens. Fui aquele que preferiu a piedade ao amor, preferiu o ódio ao amor, o amor ao amor. O que se disse: se não é da carne brilhar, qualquer cintilação sua seria fárua; dela é só apodrecimento e o cansaço.

*

Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso
duplo espelho - o precário no precário
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

*

Quem fala em flor não diz tudo
Quem me fala em dor diz demais
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Um bolero

depois de ter vivido vinte desenganos, qual a diferença de viver mais um?

García Márquez, Gabriel

Ele está no bar. O dono do bar, que o conhece muito bem, pergunta "E para onde você vai?". E ele responde: "Sei lá. Vou à merda."

Retirado do livro sobre as aulas na Oficina de Roteiro da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Auster, Paul

Maridos desaparecem todos os dias, diz ele, e, a menos que haja indício de crime, a polícia não pode fazer nada. Perto do desespero, dando por fim vazão à angústia e à tristeza que foram se acumulando dentro dela nos últimos dias, Eva diz ao sargento que ele é um filho-da-puta sem coração e desliga.

*

(...)seus modos foram reservados e cavalheirescos, até um pouco distantes. Um homem mais perdido do que agressivo, lembrava disso, com um inconfundível toque de tristeza pairando sobre si.

*

Sentia-me extremamente vulnerável, como se o próprio ar fosse uma ameaça, como se uma rajada inesperada de vento pudesse soprar através de mim e deixar meu corpo espalhado em pedaços pelo chão.

retirados do livro Noite do Oráculo

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Chacal*

Entre cão e pulga, mais hora menos hora, sempre nasce uma relação legal. Um chupa o sangue do outro e os dois latem para a Lua. É nessas horas que entendem que não adianta a preocupação, que ambos têm todos os elementos que identifiquem a melancia com a melancolia.

*

Quero que me enterrem sobre cinco palmos de terra e me deixam lá tirando a soneca definitiva. Sei que sentirei algumas cocégas quando os vermes vierem me mastigar. Espero estar triste o suficiente para não ter um acesso de riso e atrasar minha transmutação. Quero ir com elegância do homem ao húmus.

*

Era uma tribo de renegados aquela. Drop outs, retirantes, traficantes da luxúria, da miséria da angústia e do ódio. Só a aversão os ligava. Aversão à justiça, aversão à vida, aversão à felicidade. Eles comiam o pão que o diabo amassou e bebiam sangue e soda cáustica. Viviam com bem pouco é verdade, mas viviam pouco. Nenhum deles jamais atingiu a serenidade. São ociosos o tempo todo, embora o tempo seja pouco. Quem jamais os viu sorrindo dirá que são infelizes. Eles não desprezam a bondade porque não a conhecem. Eles degeneram no ócio. Eles apenas fumam ópio e deliram. renegados de todos os códigos, de todos os ritos, eles são a fratura exposta da carne de onde vieram. Eles não dão bom-dia. Quando muito, um até logo.
(...)
Era um bando de taciturnos. Nem ternos, nem turvos. Taciturnos. tratavam vez em quanto contato com a vulgaridade. Então se desfaziam em dramas, se desmanchavam em incertezas. Para parar por aí, pensavam, pensavam, pensavam. Poucos dos que passavam, passavam pensando se iam voltar. Desses, poucos voltavam. Os que voltavam, voltavam pensando que iam voltar. Os outros não voltavam. Pensavam.
(...)
Eles normalmente têm falta de ar quando vêem os telejornais mostrarem o que vai pelo mundo. Eles não entendem. Eles são tristes.

*

LINHAS TRAÇOS

quadros abstratos
figuras impressionistas
quero pegar pesado
quero ser artista

óleo sobre tela
meu coração é dela
spray na parede
mata minha sede

claro escuro
cores caras
linhas traços
noites claras

verde azul e preto
amarelo encarnado
entre formas brutais
e o olho desgraçado.

*

Talvez o Rock seja aquele momento em que o homem se encontra com o homem e eentende que se ele não pode ser o outro, ele está absolutamente só e só lhe resta chorar. E desse choro nasce a Felicidade. A Felicidade de poder cantar e dançar com o outro que lhe completa o passo, que lhe rebate a luz, que lhe introduz nos Mistérios, que lhe permite entender que ele só é ele com o outro, com o além dele, com o todo.

*

Você treme. Você acha que é o frio. Tudo bem. Seus dentes começam a ficar amarelados. Deve ser o cigarro. Tudo bem. Você está no ônibus e vê pequenos delinquüentes roubarem uma bolsa. Antes a bolsa do que a vida. Tudo bem. Os pivetes têm pêlos saindo do nariz. Você acha que é coisa da idade. Tudo bem. Você está na rua e crianças te empurram balas, drops, chicletes. Você fecha o vidro e liga o rádio. Tudo bem. Você vai para casa e ela está fria. Você acha que é agosto e é inverno. Tudo bem. Você liga a TV e vê um mundo perplexo entre anúncios caóticos. Você faz as contas e vê quanto pode gastar logo ali. Você acha que dá. Tudo bem. Você olha para o céu e começa a chover. Você não tem guarda-chuva. Você abre um jornal para dar uma revista. Algumas pessoas usam estrelas nos ombros. Outras comem ratos. Outras acertam na loto. Outras falam de moratória. Você acha tudo muito complexo e esmaga uma espécie de fungo que lhe nasce entre os dedos do pé. Você relaciona isso com a umidade. Tudo bem. Você tenta dormir. O sono não vem. Você acha que porque é difícil dormir com um barulho desses. Tudo bem. Você pensa em ligar para alguém. Seu telefone está desligado. Menos uma conta. Tudo bem. Você toma uma, fma outro, tosse uns barulhos esquisitos lhe saindo pelos brônquios. Na primavera você se recupera. Tudo bem. Você sai na rua e um fusca da guarda-civil o interpe-la bruscamente sobre sua procedência. Você se assusta mas acha que é a lei. Tudo bem. Você esbarra com milhares de pessoas na rua que lhe pedem fogo. Você começa a pedir também. Não vai ser um cigarro que vai tirar seu humor médio. Tudo bem. Suas orelhas parecem que crescem. Você acha que é picada de inseto. Você sabe que os mosquistos são mais comuns no verão. Suas orelhas crescem a olhos vistos. Você se acustuma. Tudo bem. Você desliga o rádio e vai ao hipódromo jogar naquela barbada do quinto páreo. Seu cavalo tropeça, quebra a pata e é sacrificado. Você acha que foi melhor pra ele e que o animal lhe fez perder o último barão. Outros virão. Podes crer. Sua barriga começa a inchar. Você não comeu nada hoje. Deve ser falta de exercício. Podes crer. Você vai ao cinema e o filme não lhe diz nada. Você acha que é o sono. Podes crer. Você sai na rua e os carros quase lhe abotoam. Você acha que é o trânsito aliado a sua desatenção. Podes crer. Você vai jogar bola e não tem vaga pra você. Você acha que é porque aquela não é a sua turma. Podes crer. Você vai à praia, pega uma onda e quase se afoga. Você acha que seu fôlego já foi melhor. Podes crer. Você pega um livro. ELe é igual àquele outro que é igual àquele outro. Você lê o livro outra vez. Podes crer. Você vai ao teatro e acha um barato. Pena que não teve peça. Um ator entrou em pane. Podes crer. Você sente uma vontade irresistível de comer queijo. Você sempre gostou de queijo. Podes crer. Você vai a uma festa e não dança com ninguém. Você acha que é agosto. Podes crer. Você pára numa vitrine e uma roupa lhe chama de tesouro. Você acha que é alucinação de ótica. É isso aí. Você entra no metrô e não vê luz no olho de ninguém. Você põe uns óculos escuros e abre um gibi vagabundo. Você gosta do Ken parker. É isso aí. Você repara que suas unhas começam a ficar curvas e afiladas. Você acha que é o excesso de tabaco e as noites viradas. É isso aí. Você lê nas folhas, notícias de secas e enchentes, corrupção e crime. Flagelados comem ratos ao norte da miséria. Você acha que essa terra sempre foi assim. É isso aí. Você sai na rua, alguém lhe enfia a a faca nas costelas e lhe arranca o bobo do braço. Você acha que podia ter morrido. É isso aí. Seu nariz começa a se mexer com freqüência. Você acha que nunca pecou e joga pedras no chão. É isso aí. Você passa a mão no rosta e só encotnra pêlos. Você acha que é a falta de saco de fazer a barba. Só. Você ouve um barulho de multidão vindo do norte. Você acha que é sua imaginação. Só. Você começa a grunhir e a correr acuado.
Tarde demais.

retirados do livro Comício de tudo

*apelido de Ricardo de Carvalho Duarte

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Antes do pôr-do-sol

quebrei o coração muitas vezes e me recuperei. agora nao faço força nenhuma, sei que não vai funcionar, não vai dar certo, não vai.

*

e sabe o quê mais? pra mim amor e realidade são contraditórios.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Pessoa, Fernando

"Constituição íntima das cousas"
"Sentido íntimo do Universo"
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está ralando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão

*

Bebendo o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,

Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas caricias
Dos instantes volúveis.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Regina Spektor

And maybe if i sober up
I will stop pretending that love is forever

Love will be the death of me
Love is so fickle
Cause it starts with a flood
And it ends with a tr tr tr tr tr tr tr tr tr tr trickle


*bartender