Joelhos juntos, vai olhando os pés como se contemplasse a linha do horizonte. Saudade do tempo em que tinha saúde para desprezar o próprio corpo. Agora pouca convicção lhe resta, mesmo quando se lamenta:
- Sonhar me deixa muito cansado. Dá um trabalhão danado, sonhar.
- Se o senhor não sonhasse, já teria arrumado as ferramentas na caixa.
As ferramentas estão espalhadas pelo soalho. Ele recusa arrumá-las na devida caixa.
- Fazem-me companhia - justifica assim a desordem. Dona Munda tem outra explicação para aquele caos: o marido ainda acredita poder ser chamado de emergência.
- Cure-me de sonhar, Doutor.
- Sonhar é uma cura.
- Um sonhadeiro anda por aí, por lonjuras e aventuras, sei lá fazendo o quê e com quem... Não haverá um remédio que me anule o sonho?
O médico ri-se, sacudindo a cabeça. Retira da sacola o estetoscópio, mas o doente, mal pressente a intenção, ergue-se, esquivo. Sidónio deixa escapar o aparelho que tomba entre chaves de fenda, alicates e apetrechos do ex-mecânico. Bartolomeu espreita de lado, com desconfiança de bicho:
- Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos.
- Sonhar só o faz ficar mais vivo.
- Para quê? Estou cansado de ficar vivo. Ficar vivo não é viver, Doutor.
*
Mais nova, escutava as outras lamentarem-se do destino, elas que estavam na flor da idade. Nunca lhe doeu tanto uma inveja. Porque, a ela, nenhuma idade tinha sido de flores. Amarelecida a idade, esbateu-se o sonho de ser pétala, simples lembrança de fragrância.
*
No resto, Mundinha partilha a condição das demais mulheres da Vila: envergonhada de ter nascido, temente de viver e triste por não saber morrer.
- Posso perguntar uma coisa? Por que razão vocês passaram a dormir separados?
- A vida é um rio, Doutor; a água junta e separa.
- Você é feliz, Dona Munda?
- Não é que seja infeliz. Eu não sou é feliz.
(...)
- Uma coisa aprendi na vida. Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz.
*
Quem tinha vivido ali? O recepcionista, subterfugitivo, vagueia: não existe o ter vivido. Viver é um verbo sem passado.
*
Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedora para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideiais mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormirmos.
*
Somos donos do Tempo apenas quando o Tempo se esquece de nós.
*
- Não sou eu que fumo, Doutor Sidonho. O cigarro é que me está fumando a mim.
- Nisso estamos de acordo. O senhor não devia tocar mais em cigarro.
- O Doutor me desculpe, mas o senhor não entende o fumar.
- Não entendo, como?
- Não é o tabaco que a gente consome. A gente fuma é a tristeza.
*
O riso dela ganhou espessura, inundando-lhe o corpo. Depois, o corpo já não lhe bastava e ela se encostou nele. O português viu as suas defesas desmoronarem. Os braços dele envolveram-na, a medo. (...)
- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente.
- Sei prevenir-me.
- E porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.
Deolinda franziu o sobrolho. Empurrou o português de encontro à parede, colando-se a ele. Sidónio não mais regressaria desse abraço.
- Que olhar é meu nos olhos teus?
*
Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.
*
Há esperas que nunca se aprendem. Mesmo sob o dilúvio, continuaremos aguardando a chuva. É de outra água que esperamos.
*
Como diz munda: apenas um mortal pecado pode curar a doença de viver.
*
Talvez seja e espessura desse céu que faz os cacimbeiros sonharem tanto. Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco.
Trechos retirados do livro Veneno de Deus, Remédio do Diabo, da editora Companhia das Letras
quarta-feira, 21 de julho de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Oz, Amós
No caderno Almon escreveu, entre outras coisas, que, sem todos os animais, até mesmo as noites de verão mais ralas lhe pareciam às vezes como cobertas por uma neblina turva, uma neblina que desce sobre tudo quase enterrando a aldeia, o coração e o bosque. O nevoeiro das noites de verão, escreveu o pescador no seu caderno, não é seco e leve como o vapor fino da geada do inverno, mas é empoeirado, imundo e opressivo.
Desde aquela noite em que Nehi, o demônio, levou consigo todos os animais e os arrastou atrás dele até o seu esconderijo na montanha, os habitantes da aldeia viviam cultivando seus pomares em silêncio e medo. Sem nenhum animal em casa e sem nenhum animal na lavoura. Sozinhos. Apenas o rio ainda passava, rolando na correnteza do seu curso pequenas pedras lisas, galhos quebrados, blodos de lodo. Dia e noite, inverno e verão, sem repouso.
*
O bosque é um lugar perigoso. Tome cuidado com as montanhas. Todo arbusto pode conter más intenções. Toda rocha pode esconder atrás de si alguma coisa que não é rocha. (...) A escuridão nos odeia. Lá fora está cheio de perigos.
Das profundezas dos bosques, do coração dos bosques emaranahdos que cercavam a aldeia por todos os lados, de manhã até a noite soprava um cheiro estranho de escuridão. E, até mesmo nos meses de verão chegava dos bosques um tipo de penumbra de inverno. E o rio, efervescente, borbulhante, se contorcia entre os pátios e se arrastava até o vale, correndo furioso no declive com uma espuma branca nas suas margens, como se corresse com toda a força para fugir para bem longe, e mesmo assim ele se detinha por um minuto para almadiçoar em seu curso toda a aldeia.
*
(...) pois em toda sala de aula ou grupo, disse o homem, há um assim, não desejado, alguém diferente que insiste em correr atrás do grupo de crianças onde quer que elas estejam, e sempre fica a uma distância de alguns passos atrás dos demais, constrangido e envergonhado, invulnerável às ofensas e gozações, ansiando desesperadamente por ser aceito, poder pertencer, e para tanto está disposto a fazer tudo, servir como escudeiro, escravo deles, disposto até a se fazer de tonto para ser engraçado, disposto a ser palhaço e alvo de zombarias, que dele debochem o quanto quiserem, que até mesmo o maltratem um pouco, não importa, ele entrega a eles, gratuitamente, seu coração rejeitado.
Trechos retirados do livro De repente, nas profundezas do bosque, da editora Cia. das Letras, tradução de Tova Sender.
Desde aquela noite em que Nehi, o demônio, levou consigo todos os animais e os arrastou atrás dele até o seu esconderijo na montanha, os habitantes da aldeia viviam cultivando seus pomares em silêncio e medo. Sem nenhum animal em casa e sem nenhum animal na lavoura. Sozinhos. Apenas o rio ainda passava, rolando na correnteza do seu curso pequenas pedras lisas, galhos quebrados, blodos de lodo. Dia e noite, inverno e verão, sem repouso.
*
O bosque é um lugar perigoso. Tome cuidado com as montanhas. Todo arbusto pode conter más intenções. Toda rocha pode esconder atrás de si alguma coisa que não é rocha. (...) A escuridão nos odeia. Lá fora está cheio de perigos.
Das profundezas dos bosques, do coração dos bosques emaranahdos que cercavam a aldeia por todos os lados, de manhã até a noite soprava um cheiro estranho de escuridão. E, até mesmo nos meses de verão chegava dos bosques um tipo de penumbra de inverno. E o rio, efervescente, borbulhante, se contorcia entre os pátios e se arrastava até o vale, correndo furioso no declive com uma espuma branca nas suas margens, como se corresse com toda a força para fugir para bem longe, e mesmo assim ele se detinha por um minuto para almadiçoar em seu curso toda a aldeia.
*
(...) pois em toda sala de aula ou grupo, disse o homem, há um assim, não desejado, alguém diferente que insiste em correr atrás do grupo de crianças onde quer que elas estejam, e sempre fica a uma distância de alguns passos atrás dos demais, constrangido e envergonhado, invulnerável às ofensas e gozações, ansiando desesperadamente por ser aceito, poder pertencer, e para tanto está disposto a fazer tudo, servir como escudeiro, escravo deles, disposto até a se fazer de tonto para ser engraçado, disposto a ser palhaço e alvo de zombarias, que dele debochem o quanto quiserem, que até mesmo o maltratem um pouco, não importa, ele entrega a eles, gratuitamente, seu coração rejeitado.
Trechos retirados do livro De repente, nas profundezas do bosque, da editora Cia. das Letras, tradução de Tova Sender.
domingo, 11 de julho de 2010
Cortázar, Julio
A partir daqui retirado do livro Divertimento, editora Punto de Lectura
–Tu orgullo poético tiene algo de repugnante filantrópico –dijo Renato, rompiendo un silencio que duraba–. Apenas vomitás un par de imágenes interesantes, te sentís cómplice de Dios, lo ayudás a hacer el mundo.
–Estamos condenados a ser sus cómplices.
–Yo no. Mi pintura se basta a sí misma, se ordena en un pequeño mundo cerrado. No necesita del mundo para ser, y viceversa.
–¡Y hablás de mi orgullo!
*
– No, sigamos charlando – le pedí –. Venga a sentarse con nosotros, Sú. Algo de raro hay aquí esta noche, y todos tenemos un poco la culpa. Jorge está soñoliento, Marta se ha puesto didáctica. Ayúdenos, Sú.
Era el gran conjuro, el perdido máximo. Cuántas veces le había oído yo a Renato la misma frase: “Ayúdame, Sú”. Botón suelto, ensalada sosa, horario perdido, moscardón o avispa en el taller. Ayúdenos, Sú. Sea la gran superintendente de los juegos. La controladora de los juegos de agua, oh sí, Sú.
*
Del mismo modo que el ovillo está ahí (o la madeja, su pequeño mar fofo naranja o verde sobre la falda) y vos tirás de una punta, entonces la punta se entrega, la sentís ceder desenvuelta, oh pibe qué estupendo tirar y tirar, sobre un cachito de cartón vas envolviendo el hilo para hacer un buen ovillo sin nudos, nada de ovillado, algo continuo y terso como la avenida General Paz.
Perfectamente sacás el hilo y te parece que después de todo el otro ovillo no estaba tan enredado, empezás a pensar que estás perdiendo el tiempo, siempre el hilo viniendo mansito a ponerse sobre sí mismo en el cartón, lo de más abajo tapado por lo de más arriba que en seguida es lo de más abajo (como en las buenas polentas: una capa de tuco, una de polenta, una de queso rallado; o el juego que hacíamos de chicos, primero yo ponía una mano, entonces abuelita ponía encima la de ella, y yo la otra y ella la otra; yo sacabala de abajo –despacito despacito porque ahí estaba la delicia– y la ponía arriba; ella sacaba la de abajo y la ponía encima, yo sacaba la de abajo –ahora más ligero– y la ponía encima, ya venía la de ella, la míaladellalamía qué manera de reírnos–) porque viene otra capa de hilo a arrollarse por encima – que en seguida es lo de más abajo.
Todo va así perfectamente, y a vos te parece que estás perdiendo el tiempo porque el ovillo no estaba enredado, el hilo viene y viene sin tropiezo, parece increíble que de esa masa glutinosa nazca el hilillo claro que sube por el aire hasta tu mano. Y entonces oís (los dedos sienten sonar esta ruptura terrible) que algo se resiste, se pone de pronto tenso, el hilo zumba envuelto en su polvillo de talco y pelusa, un nudo cierra la salida, cierra el ritmo feliz, el ovillo estaba enredado en redado ahí dentro entonces hay cosas que no son el hilo solamente, el ovillo no es un hilo arrollado sobre sí, dentro del mundo del ovillo entrevé ahora tu sorpresa cosas que no son hilo, ahora ya sabés que hilo más hilo no basta para dar ovillo. Un nudo, qué es un nudo, hilo mordiéndose, sí pero nudo, no solamente hilo dentro de hilo. Nudo otra cosa que hilo. Globo terrestre ovillo, ahora ves mares, continentes, una flora ahí dentro, y no te vale tirar porque resiste, tires de los paralelos, tires de los meridianos. Todo iba tan bien cuando no era más que un ovillo, definición de hilo arrollado en cantidades. Tirás furiosa, porque esta cosa nueva es rebelde y te resiste, ves salir un poco de hilo, apenas un poco y adentro como un anzuelo de hilo que lo retiene, una pesca al revés y cómo estás de rabiosa. Sin salida salvo Alejandro Magno, sistema tonto añejo inútil. Cómo desenredarlo, el ovillo en alto contra la luz, hilos paralelos, diez, ochenta, oh cuántos. –Pero aquí contra el tuyo anzuelo de sí mismo, dos o tres retorcidos, seminudos y un hilito parado ahí, tu ovillito interrumpido ahí. Así es como se aprende a mirar una madeja, olvidada de la definición, hilo sobre sí mismo muchas veces
macana
Más cosas hay en el cielo y en la tierra, Horacio – En los ovillos que no son nada, su propia materia girando y girando inmóvil, universo translúcido en la mano, copa de árbol de lana con cosas adentro que enganchan los hilos.
*
Mi segundo día de descanso transcurrió en ocupaciones vagas; a veces mi hermano mayor me telefonea para que vaya a verlo a su estudio, y cuando estoy ahí me lee sus últimos estudios sobre la reforma del Código de Minería. Como estoy endeudado con él, lo escucho atentamente y hasta soy coautor de cinco artículos del proyecto. Mi hermano es de los que creen que un poeta debe estar signado por la desgracia, y sobre todo que eso debe vérsele, de modo que cuando me le aparezco rosado y sonriente me contempla con alguna sospecha y no tiene aún opinión formada sobre mi obra. Estoy seguro de que me bastaría beber el muy argentino vaso de cianuro para que él descubriera, sobre mi sepulcro, al lírico que hoy apenas imagina.
La visita a mi hermano me proporcionó, como siempre, oportunidad de verme tal cual soy por contragolpe, y salir de allí dispuesto a iniciar un buen examen de conciencia. Anduve por el centro, errático, me bebí un balón de sidra en La Victoria y tomé café en el Boston. Ambos lugares, sobre todo el Boston, aumentan notablemente mi poder introspectivo, porque en ellos viví muchas horas de buena y mala vida, y me basta tocas sus sillas u oler sus aserrines para sentirme menos bueno, menos feliz y menos estúpido.
*
Le puse el brazo en el hombro, la atraje contra mí y la besé en la nuca, en la garganta. Se abandonaba, blanda, pero seguía lejana y desasida; no era mía.
A partir daqui retirado do livro 62 - Modelo para armar
Mas no fundo sei que tudo é falso, que já estou longe do que acaba de me acontecer e que como tantas outras vezes se resolve neste desejo inútil de compreender, desconsiderando talvez o chamamento ou o sinal escuro da própria coisa, a inquietação em que me deixa, a exibição instantânea de uma outra ordem na qual irrompem lembranças, potências e sinais para formar uma fulgurante unidade que se desfaz no próprio instante em que me arrasa e me arranca de mim mesmo. Agora, tudo isso não me deixou mais do que a curiosidade, o velho lugar comum humano: decifrar. E o resto, a contração na boca do estômago, a certeza obscura de que por ali, não por causa daquela simplificação dialética, começa e continua um caminho.
*
De tudo isso ia ficando Hélène, como sempre sua sombra fria no mais fundo do portal onde eu me refugiara do chuvisco para fumar. Sua fria distante inevitável sombra hostil. Outra vez, sempre: fria, distante inevitável sobra hostil. O que vinhas fazer aqui? Não tinhas o direito de estar entre as cartas dessa sequência, não eras tu que me tinhas esperado na esquina da rue de Vaugirard. Por que teimavas em te somar, porque ouviria mais uma vez tua voz falando-me de um rapaz morto numa mesa de operação, de uma boneca guardada num ármario? Por que choravas de novo, odiando-me?
*
- Não, nenhum deles está louco, nenhum de nós está. Precisamente hoje à tarde pensei que não é qualquer um que fica louco, essas coisas é preciso merecê-las. Não é como a morte, entende; não é um absurdo total como a morte ou a paralisia ou a cegueira. Entre nós há alguns que bancam os loucos por simples nostalgia, por provacação; às vezes, à força de fingir... Mas não consiguirão.
*
Como dizê-lo a alguém se tu mesmo não poderias saber que menção do teu nome, o trânsito de tua imagem em qualquer lembrança alheia me despe e me vulnera, me joga dentro de mim mesma com esse impudor total que nenhum espelho, nenhum ato amoroso, nenhum reflexão impiedosa podem dar com tanta rancor; que te quero bem à minha maneira e que esse carinho te condena porque te torna meu delator, aquele que por me querer e por ser querido me despoja e me despe e me faz ver-me tal qual sou; alguém que tem medo e que não o dirá jamais, alguém que faz de seu medo a força que a leva a viver como vive.
A partir daqui retirado do livro Histórias de Cronópios e Famas
E seu ensinamento é este: "Não há terceira dimensão, a Terra é plana, o homem rasteja. Aleluia!" Talvez seja o Diabo quem diz essas coisas, e talvez você acredite nelas porque quem as dias é um rei.
*
Em casa de Jacinto há uma poltrona para morrer.
Quando a pessoa fica velha, um dia a convidam para sentar na poltrona, que é uma poltrona igual a todas mas tem uma estrelinha prateada no meio do encosto. A pessoa convidada suspira, mexe um pouco as mãos como se quisesse afastar o convite e depois senta na poltrona e morre.
*
O esmagamento das gotas
Eu não sei, olha, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e vê-se que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.
*
E por isso lhe ocorria agora aquilo que, na verdade, deveria ter lhe ocorrido logo no início: se alguém não tem domínio sobre si, jamais poderia ter alcançado a singularidade. E, afinal, quem é que se dominava de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou, ainda, no matrimônio para estar, pelo menos, só entre os demais?
–Tu orgullo poético tiene algo de repugnante filantrópico –dijo Renato, rompiendo un silencio que duraba–. Apenas vomitás un par de imágenes interesantes, te sentís cómplice de Dios, lo ayudás a hacer el mundo.
–Estamos condenados a ser sus cómplices.
–Yo no. Mi pintura se basta a sí misma, se ordena en un pequeño mundo cerrado. No necesita del mundo para ser, y viceversa.
–¡Y hablás de mi orgullo!
*
– No, sigamos charlando – le pedí –. Venga a sentarse con nosotros, Sú. Algo de raro hay aquí esta noche, y todos tenemos un poco la culpa. Jorge está soñoliento, Marta se ha puesto didáctica. Ayúdenos, Sú.
Era el gran conjuro, el perdido máximo. Cuántas veces le había oído yo a Renato la misma frase: “Ayúdame, Sú”. Botón suelto, ensalada sosa, horario perdido, moscardón o avispa en el taller. Ayúdenos, Sú. Sea la gran superintendente de los juegos. La controladora de los juegos de agua, oh sí, Sú.
*
Del mismo modo que el ovillo está ahí (o la madeja, su pequeño mar fofo naranja o verde sobre la falda) y vos tirás de una punta, entonces la punta se entrega, la sentís ceder desenvuelta, oh pibe qué estupendo tirar y tirar, sobre un cachito de cartón vas envolviendo el hilo para hacer un buen ovillo sin nudos, nada de ovillado, algo continuo y terso como la avenida General Paz.
Perfectamente sacás el hilo y te parece que después de todo el otro ovillo no estaba tan enredado, empezás a pensar que estás perdiendo el tiempo, siempre el hilo viniendo mansito a ponerse sobre sí mismo en el cartón, lo de más abajo tapado por lo de más arriba que en seguida es lo de más abajo (como en las buenas polentas: una capa de tuco, una de polenta, una de queso rallado; o el juego que hacíamos de chicos, primero yo ponía una mano, entonces abuelita ponía encima la de ella, y yo la otra y ella la otra; yo sacabala de abajo –despacito despacito porque ahí estaba la delicia– y la ponía arriba; ella sacaba la de abajo y la ponía encima, yo sacaba la de abajo –ahora más ligero– y la ponía encima, ya venía la de ella, la míaladellalamía qué manera de reírnos–) porque viene otra capa de hilo a arrollarse por encima – que en seguida es lo de más abajo.
Todo va así perfectamente, y a vos te parece que estás perdiendo el tiempo porque el ovillo no estaba enredado, el hilo viene y viene sin tropiezo, parece increíble que de esa masa glutinosa nazca el hilillo claro que sube por el aire hasta tu mano. Y entonces oís (los dedos sienten sonar esta ruptura terrible) que algo se resiste, se pone de pronto tenso, el hilo zumba envuelto en su polvillo de talco y pelusa, un nudo cierra la salida, cierra el ritmo feliz, el ovillo estaba enredado en redado ahí dentro entonces hay cosas que no son el hilo solamente, el ovillo no es un hilo arrollado sobre sí, dentro del mundo del ovillo entrevé ahora tu sorpresa cosas que no son hilo, ahora ya sabés que hilo más hilo no basta para dar ovillo. Un nudo, qué es un nudo, hilo mordiéndose, sí pero nudo, no solamente hilo dentro de hilo. Nudo otra cosa que hilo. Globo terrestre ovillo, ahora ves mares, continentes, una flora ahí dentro, y no te vale tirar porque resiste, tires de los paralelos, tires de los meridianos. Todo iba tan bien cuando no era más que un ovillo, definición de hilo arrollado en cantidades. Tirás furiosa, porque esta cosa nueva es rebelde y te resiste, ves salir un poco de hilo, apenas un poco y adentro como un anzuelo de hilo que lo retiene, una pesca al revés y cómo estás de rabiosa. Sin salida salvo Alejandro Magno, sistema tonto añejo inútil. Cómo desenredarlo, el ovillo en alto contra la luz, hilos paralelos, diez, ochenta, oh cuántos. –Pero aquí contra el tuyo anzuelo de sí mismo, dos o tres retorcidos, seminudos y un hilito parado ahí, tu ovillito interrumpido ahí. Así es como se aprende a mirar una madeja, olvidada de la definición, hilo sobre sí mismo muchas veces
macana
Más cosas hay en el cielo y en la tierra, Horacio – En los ovillos que no son nada, su propia materia girando y girando inmóvil, universo translúcido en la mano, copa de árbol de lana con cosas adentro que enganchan los hilos.
*
Mi segundo día de descanso transcurrió en ocupaciones vagas; a veces mi hermano mayor me telefonea para que vaya a verlo a su estudio, y cuando estoy ahí me lee sus últimos estudios sobre la reforma del Código de Minería. Como estoy endeudado con él, lo escucho atentamente y hasta soy coautor de cinco artículos del proyecto. Mi hermano es de los que creen que un poeta debe estar signado por la desgracia, y sobre todo que eso debe vérsele, de modo que cuando me le aparezco rosado y sonriente me contempla con alguna sospecha y no tiene aún opinión formada sobre mi obra. Estoy seguro de que me bastaría beber el muy argentino vaso de cianuro para que él descubriera, sobre mi sepulcro, al lírico que hoy apenas imagina.
La visita a mi hermano me proporcionó, como siempre, oportunidad de verme tal cual soy por contragolpe, y salir de allí dispuesto a iniciar un buen examen de conciencia. Anduve por el centro, errático, me bebí un balón de sidra en La Victoria y tomé café en el Boston. Ambos lugares, sobre todo el Boston, aumentan notablemente mi poder introspectivo, porque en ellos viví muchas horas de buena y mala vida, y me basta tocas sus sillas u oler sus aserrines para sentirme menos bueno, menos feliz y menos estúpido.
*
Le puse el brazo en el hombro, la atraje contra mí y la besé en la nuca, en la garganta. Se abandonaba, blanda, pero seguía lejana y desasida; no era mía.
A partir daqui retirado do livro 62 - Modelo para armar
Mas no fundo sei que tudo é falso, que já estou longe do que acaba de me acontecer e que como tantas outras vezes se resolve neste desejo inútil de compreender, desconsiderando talvez o chamamento ou o sinal escuro da própria coisa, a inquietação em que me deixa, a exibição instantânea de uma outra ordem na qual irrompem lembranças, potências e sinais para formar uma fulgurante unidade que se desfaz no próprio instante em que me arrasa e me arranca de mim mesmo. Agora, tudo isso não me deixou mais do que a curiosidade, o velho lugar comum humano: decifrar. E o resto, a contração na boca do estômago, a certeza obscura de que por ali, não por causa daquela simplificação dialética, começa e continua um caminho.
*
De tudo isso ia ficando Hélène, como sempre sua sombra fria no mais fundo do portal onde eu me refugiara do chuvisco para fumar. Sua fria distante inevitável sombra hostil. Outra vez, sempre: fria, distante inevitável sobra hostil. O que vinhas fazer aqui? Não tinhas o direito de estar entre as cartas dessa sequência, não eras tu que me tinhas esperado na esquina da rue de Vaugirard. Por que teimavas em te somar, porque ouviria mais uma vez tua voz falando-me de um rapaz morto numa mesa de operação, de uma boneca guardada num ármario? Por que choravas de novo, odiando-me?
*
- Não, nenhum deles está louco, nenhum de nós está. Precisamente hoje à tarde pensei que não é qualquer um que fica louco, essas coisas é preciso merecê-las. Não é como a morte, entende; não é um absurdo total como a morte ou a paralisia ou a cegueira. Entre nós há alguns que bancam os loucos por simples nostalgia, por provacação; às vezes, à força de fingir... Mas não consiguirão.
*
Como dizê-lo a alguém se tu mesmo não poderias saber que menção do teu nome, o trânsito de tua imagem em qualquer lembrança alheia me despe e me vulnera, me joga dentro de mim mesma com esse impudor total que nenhum espelho, nenhum ato amoroso, nenhum reflexão impiedosa podem dar com tanta rancor; que te quero bem à minha maneira e que esse carinho te condena porque te torna meu delator, aquele que por me querer e por ser querido me despoja e me despe e me faz ver-me tal qual sou; alguém que tem medo e que não o dirá jamais, alguém que faz de seu medo a força que a leva a viver como vive.
A partir daqui retirado do livro Histórias de Cronópios e Famas
E seu ensinamento é este: "Não há terceira dimensão, a Terra é plana, o homem rasteja. Aleluia!" Talvez seja o Diabo quem diz essas coisas, e talvez você acredite nelas porque quem as dias é um rei.
*
Em casa de Jacinto há uma poltrona para morrer.
Quando a pessoa fica velha, um dia a convidam para sentar na poltrona, que é uma poltrona igual a todas mas tem uma estrelinha prateada no meio do encosto. A pessoa convidada suspira, mexe um pouco as mãos como se quisesse afastar o convite e depois senta na poltrona e morre.
*
O esmagamento das gotas
Eu não sei, olha, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e vê-se que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.
*
E por isso lhe ocorria agora aquilo que, na verdade, deveria ter lhe ocorrido logo no início: se alguém não tem domínio sobre si, jamais poderia ter alcançado a singularidade. E, afinal, quem é que se dominava de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou, ainda, no matrimônio para estar, pelo menos, só entre os demais?
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Moraes, Vinicios de
Poética I
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteçoDe noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
*
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteçoDe noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
*
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Amado, Jorge
E ele veio apesar do gosto do corpo de Ivone o prender ali, de saber que deixara nela um filho. Dizia para si mesmo que ia fazer dinheiro para ela e para o filho, voltaria com um ano. A terra era fácil em Ilhéus, plantaria uma roça de cacau, colheria os frutos, voltaria por Ivone e pela criança. O pai dela não voltou, ninguém sabia mesmo onde ele estava. Um velho está dizendo que ninguém volta destas terras, nem mesmo os que têm mulher e dois filhos. Por que essa harmônica não pára de tocar, por que essa música é tão triste? Por que é vermelha como sangue essa lua sobre o mar?
*
Hoje, no entanto, nem a quer mirar, seus olhos procuram outra visão. A lua está no alto dos céus. Por que se pode fitar a lua e não há olhos que aguentem fitar o sol?
*
- (...) Uma vez vi ela de novo. Vinha de longe, tenho certeza. De muito longe, não era daquela terra...
- Tão bonita a lua... - disse a rameira e o marinheiro reparou que ela tinha os olhos tristes. Ela queria dizer outra coisa mas não encontrou palavras.
- De longe, quem sabe se do fundo do mar? Só sei mesmo que veio e foi embora. É só mesmo o que sei. Ela nem reparou em mim. Mas até hoje me lembro do jeito dela rir, dos dentes, da brancura dela. E o vestido - quase gritou de alegria ao se recordar do novo detalhe -, o vestido de mangas abertas...
Emborcou o copo, esticou o beiço, não estava mais alegre. A voz da mulher que cantava na noite lírica ia sumindo devagarinho:
"Partiu para nunca mais voltar".
- E depois? - perguntou novamente o de anelão falso.
O de colete azul não respondeu e a prostituta não sabia se ele estava olhando para a lua ou para alguma coisa que ela não via lá, mais além da lua e das estrelas, mais além do céu, mais além da noite tão tranquila. E, antes que as lágrimas viessem, partiu com o loiro marinheiro para a festa da noite de luar.
*
Vê através de seus olhos secos, sem lágrimas, pensa que seco está seu coração também, coberto pela sombra do cacau.
Não adianta mais pensar em fugir, agora seus pés estão presos no visgo daquela terra, visgo de cacau mole, visgo de sangue também. Nunca mais será possível sonhar outra vida diferente. (...)
Seus olhos secos, suas mãos trêmulas, seu coração doído. (...)
E a angústia aumenta, ele veste a roupa quase correndo, sente uma necessidade de deixar que a chuva caia sobre ele, sobre sua cabeça ardente, lave suas mãos sujas de sangue, lave seu coração manchado. Se esquece de descer em passos cuidadosos para não acordar as empregadas. E sai pelo quintal, no leito da estrada de ferro arranca o chapéu e deixa que a chuva escorra sobre o seu rosto, como se fossem as lágrimas que ele não chorou.
Trechos retirados do livro Terras do Sem-Fim, editora Círculo do Livro
*
Hoje, no entanto, nem a quer mirar, seus olhos procuram outra visão. A lua está no alto dos céus. Por que se pode fitar a lua e não há olhos que aguentem fitar o sol?
*
- (...) Uma vez vi ela de novo. Vinha de longe, tenho certeza. De muito longe, não era daquela terra...
- Tão bonita a lua... - disse a rameira e o marinheiro reparou que ela tinha os olhos tristes. Ela queria dizer outra coisa mas não encontrou palavras.
- De longe, quem sabe se do fundo do mar? Só sei mesmo que veio e foi embora. É só mesmo o que sei. Ela nem reparou em mim. Mas até hoje me lembro do jeito dela rir, dos dentes, da brancura dela. E o vestido - quase gritou de alegria ao se recordar do novo detalhe -, o vestido de mangas abertas...
Emborcou o copo, esticou o beiço, não estava mais alegre. A voz da mulher que cantava na noite lírica ia sumindo devagarinho:
"Partiu para nunca mais voltar".
- E depois? - perguntou novamente o de anelão falso.
O de colete azul não respondeu e a prostituta não sabia se ele estava olhando para a lua ou para alguma coisa que ela não via lá, mais além da lua e das estrelas, mais além do céu, mais além da noite tão tranquila. E, antes que as lágrimas viessem, partiu com o loiro marinheiro para a festa da noite de luar.
*
Vê através de seus olhos secos, sem lágrimas, pensa que seco está seu coração também, coberto pela sombra do cacau.
Não adianta mais pensar em fugir, agora seus pés estão presos no visgo daquela terra, visgo de cacau mole, visgo de sangue também. Nunca mais será possível sonhar outra vida diferente. (...)
Seus olhos secos, suas mãos trêmulas, seu coração doído. (...)
E a angústia aumenta, ele veste a roupa quase correndo, sente uma necessidade de deixar que a chuva caia sobre ele, sobre sua cabeça ardente, lave suas mãos sujas de sangue, lave seu coração manchado. Se esquece de descer em passos cuidadosos para não acordar as empregadas. E sai pelo quintal, no leito da estrada de ferro arranca o chapéu e deixa que a chuva escorra sobre o seu rosto, como se fossem as lágrimas que ele não chorou.
Trechos retirados do livro Terras do Sem-Fim, editora Círculo do Livro
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Anjos, Cyro dos
Recuei.
Pareceu-me que do mar me vinha qualquer mensagem, inexprimível por palavras, e contudo inquietante. Uma grande voz confusa se erguia do fundo das águas, arrastando-se como um trovão longínquo. As trombetas do Juízo Final deverão ser, assim, a um tempo distantes e próximas, surdas, mas dominadoras. Ouvi-las-emos, é dentro da alma, sem a interferência dos sentidos, tal como ouvimos a voz do mar.
*
Ai de nós, os que vamos passando!
*
Neste carnaval de 1935, hoje começado, mais do que nunca senti de modo tão vivo a impossibilidade de me fundir na massa, de seguir, como célula passiva, seu movimento de translação, de receber e transmitir essas forças misteriosas que nela atuam, comunicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando, afinal, numa força uniforme, esmagadora, de onda ou ciclone.
Sinto inutilmente, em mim, uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. Quero rir, chorar, cantar, dançar ou destruir, mas ensaio um gesto, e o braço cai, paralítico.
*
Será o poder de criar e de transfigurar, que possui a alma humana, ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal, pouco importa. A realidade é a aparência, e o que é - no fundo - não o é para nós, como diz Silvano.
*
Natal! Fiquei até tarde no alpendre. Com a saída dos vizinhos para a missa do galo, recolhi-me. Outras missas, noutros tempos... Como esta vida vai correndo, vai correndo... Um dia sentimos uma sacudidela, como no poema:
¹Poema Cota Zero de Drummond.
*
Já estava palmilhando a terra vaga do sono, para frente, para trás, segundo a luta surda que se trava em nós, entre uma parte do eu, que aspira ao abandono, e outra que contra ele reage, talvez pelo receio inconsciente que inspira o adormecer, imagem da morte; ganhava-me o corpo uma doce lassidão, e o espírito se embebia no torpor que afrouxara os nervos; apenas impressões vagas, preste a se apagarem, me vinham das coisas, e a uma reminiscência tênue, quase a esvaecer, reduzia-se esta lembrança permanente com que, no estado de vigilia, a memória sustenta, a cada instante, nossa precária unidade psíquica, ligando o momento que passou ao momento presente.
Trechos retirados do livro O Amanuense Belmiro, Editora Abril Cultural
Pareceu-me que do mar me vinha qualquer mensagem, inexprimível por palavras, e contudo inquietante. Uma grande voz confusa se erguia do fundo das águas, arrastando-se como um trovão longínquo. As trombetas do Juízo Final deverão ser, assim, a um tempo distantes e próximas, surdas, mas dominadoras. Ouvi-las-emos, é dentro da alma, sem a interferência dos sentidos, tal como ouvimos a voz do mar.
*
Ai de nós, os que vamos passando!
*
Neste carnaval de 1935, hoje começado, mais do que nunca senti de modo tão vivo a impossibilidade de me fundir na massa, de seguir, como célula passiva, seu movimento de translação, de receber e transmitir essas forças misteriosas que nela atuam, comunicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando, afinal, numa força uniforme, esmagadora, de onda ou ciclone.
Sinto inutilmente, em mim, uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. Quero rir, chorar, cantar, dançar ou destruir, mas ensaio um gesto, e o braço cai, paralítico.
*
Será o poder de criar e de transfigurar, que possui a alma humana, ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal, pouco importa. A realidade é a aparência, e o que é - no fundo - não o é para nós, como diz Silvano.
*
Natal! Fiquei até tarde no alpendre. Com a saída dos vizinhos para a missa do galo, recolhi-me. Outras missas, noutros tempos... Como esta vida vai correndo, vai correndo... Um dia sentimos uma sacudidela, como no poema:
Stop.
A vida passou
Ou foi o automóvel? ¹
A vida passou
Ou foi o automóvel? ¹
¹Poema Cota Zero de Drummond.
*
Já estava palmilhando a terra vaga do sono, para frente, para trás, segundo a luta surda que se trava em nós, entre uma parte do eu, que aspira ao abandono, e outra que contra ele reage, talvez pelo receio inconsciente que inspira o adormecer, imagem da morte; ganhava-me o corpo uma doce lassidão, e o espírito se embebia no torpor que afrouxara os nervos; apenas impressões vagas, preste a se apagarem, me vinham das coisas, e a uma reminiscência tênue, quase a esvaecer, reduzia-se esta lembrança permanente com que, no estado de vigilia, a memória sustenta, a cada instante, nossa precária unidade psíquica, ligando o momento que passou ao momento presente.
Trechos retirados do livro O Amanuense Belmiro, Editora Abril Cultural
Flaubert, Gustave
Desejava talvez fazer a alguém a confidência de todas estas coisas. Mas, como explicar um inexplicável mal estar que muda de aspecto como as nuvens e que se move em turbilhão como o vento? Faltava-lhe, pois, palavras, ocasião e coragem.
*
Depois de ter assim batido com o aço no coração sem lhe arrancar uma só faísca, incapaz afinal de compreender o que não sentia, como de acreditar em tudo que não se manifestava sob formas convencionais, persuadiu-se sem difuculdade de que a paixão de Charles já nada tinha de exorbitante. As suas expansões haviam-se tornado regulares; beijava-a a horas certas. Era um hábito como os outros e como que uma sobremesa prevista com antecipação após a monotonia do jantar.
*
Mas, era precisamente à hora das refeições que ela já não podia mais, naquela salinha, do rés-do-chão, com o fogão a fumegar, a porta a ranger, as paredes salitrosas, as lajes úmidas; toda a amargura da existência lhe parecia como que servida no fundo de seu prato, e ao fumegar do cozido, saíam-lhe do fundo da alma outros sopros de tédio.
*
Não teriam eles outra coisa a dizer? Os seus olhos, contudo, transbordavam duma conversação mais séria; e, na medida em que se esforçavam em achar frases banais, sentiam-se ambos invadidos pelo mesmo quebranto; era como que um murmúrio da alma, profundo, contínuo, que lhes dominava aquele das vozes. Surpreendidos e admirados por aquela suavidade nova, não pensavam em descrever-se a sensação ou descobrirem-lhe a causa. As felicidades futuras, como as praias dos trópicos, projetam, na imensidade que as precede, as suas molezas nataias, brisas perfumadas; e entorpecemonos na sua languidez, sem mesmo nos importar com o horizonte que não avistamos ainda.
Trechos retirados do livro Madame Bovary, Editora Clube do Livro, Tradução de José Maria Machado
*
Depois de ter assim batido com o aço no coração sem lhe arrancar uma só faísca, incapaz afinal de compreender o que não sentia, como de acreditar em tudo que não se manifestava sob formas convencionais, persuadiu-se sem difuculdade de que a paixão de Charles já nada tinha de exorbitante. As suas expansões haviam-se tornado regulares; beijava-a a horas certas. Era um hábito como os outros e como que uma sobremesa prevista com antecipação após a monotonia do jantar.
*
Mas, era precisamente à hora das refeições que ela já não podia mais, naquela salinha, do rés-do-chão, com o fogão a fumegar, a porta a ranger, as paredes salitrosas, as lajes úmidas; toda a amargura da existência lhe parecia como que servida no fundo de seu prato, e ao fumegar do cozido, saíam-lhe do fundo da alma outros sopros de tédio.
*
Não teriam eles outra coisa a dizer? Os seus olhos, contudo, transbordavam duma conversação mais séria; e, na medida em que se esforçavam em achar frases banais, sentiam-se ambos invadidos pelo mesmo quebranto; era como que um murmúrio da alma, profundo, contínuo, que lhes dominava aquele das vozes. Surpreendidos e admirados por aquela suavidade nova, não pensavam em descrever-se a sensação ou descobrirem-lhe a causa. As felicidades futuras, como as praias dos trópicos, projetam, na imensidade que as precede, as suas molezas nataias, brisas perfumadas; e entorpecemonos na sua languidez, sem mesmo nos importar com o horizonte que não avistamos ainda.
Trechos retirados do livro Madame Bovary, Editora Clube do Livro, Tradução de José Maria Machado
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Ramos, Graciliano
A verdade é que muitas vezes perguntei a mim mesmo se realmente ouvia aquele barulho grande, diferente dos outros barulhos. Perguntei naquele tempo ou perguntei depois? Não sei. Tenho-me esforçado por tornar-me criança - e em conseqüência misturo coisas atuais a coisas antigas.
*
[conversando sobre política]
E divergi dele, porque o achei horrivelmente antipático. Ouviu-me atento e mostrou desejo de saber o que eu era. Encolhi os ombros, olhei os quatro cantos, fiz um gesto vago, procurando no ar fragmentos da minha existência espalhada.
- Luís da Silva, Rua do Macena, número tanto. Prazer em conhecê-lo.
*
O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando-se, traindo-se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem.
*
No juri metade dos juízes de fato lançaria na urna a bola branca, metade lançaria a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opinião. Inútil esperar unanimidade. Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos.
*
"Proletários, uni-vos." Isto era escrito sem vírgula e sem traço, a piche. Que importavam a vírgula e o traço? O conselho estava dado sem eles, claro, numa letra que aumetnava e diminuía. (...)
Aquela maneira de escrever comendo os sinais indignou-me. Não dispenso as vírgulas e os traços. Quereriam fazer uma revolução sem vírgulas e sem traços? Numa revolução de tal ordem não haveria lugar para mim. Mas então?
- Um homem sapeca as pestanas, conhece literatura, colabora nos jornais, e isto não vale nada? Pois sim. É só pegar um carvão, sujar a parede. Pois sim. Moisés* que se arranje.
Senti despeito. Afastar-me-iam da repartição e do jornal, outros me substituiriam. Eu seria um anacronismo, uma inutilidade, e me queixaria dos tempos novos, bradaria contra os bárbaros que escrevem sem vírgulas e sem traços.
* amigo comunista
Trechos retirados do livro Angústia, editora Record/Altaya
*
[conversando sobre política]
E divergi dele, porque o achei horrivelmente antipático. Ouviu-me atento e mostrou desejo de saber o que eu era. Encolhi os ombros, olhei os quatro cantos, fiz um gesto vago, procurando no ar fragmentos da minha existência espalhada.
- Luís da Silva, Rua do Macena, número tanto. Prazer em conhecê-lo.
*
O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando-se, traindo-se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem.
*
No juri metade dos juízes de fato lançaria na urna a bola branca, metade lançaria a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opinião. Inútil esperar unanimidade. Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos.
*
"Proletários, uni-vos." Isto era escrito sem vírgula e sem traço, a piche. Que importavam a vírgula e o traço? O conselho estava dado sem eles, claro, numa letra que aumetnava e diminuía. (...)
Aquela maneira de escrever comendo os sinais indignou-me. Não dispenso as vírgulas e os traços. Quereriam fazer uma revolução sem vírgulas e sem traços? Numa revolução de tal ordem não haveria lugar para mim. Mas então?
- Um homem sapeca as pestanas, conhece literatura, colabora nos jornais, e isto não vale nada? Pois sim. É só pegar um carvão, sujar a parede. Pois sim. Moisés* que se arranje.
Senti despeito. Afastar-me-iam da repartição e do jornal, outros me substituiriam. Eu seria um anacronismo, uma inutilidade, e me queixaria dos tempos novos, bradaria contra os bárbaros que escrevem sem vírgulas e sem traços.
* amigo comunista
Trechos retirados do livro Angústia, editora Record/Altaya
sábado, 12 de setembro de 2009
Shelley, Mary
Um detalhe relevante: mesmo alquebrado como estava, tinha um profundo sentimento do belo em relação à natureza. O céu estrelado, o mar e todos os panoramas surpreendentes que essas regiões oferecem, tudo parecia ter ainda a faculdade de elevar-lhe a alma. Um homem assim tem dupla existência: por mais que sofra e esteja avassalado por decepções, fica, quando se recolhe a si mesmo, rodeado por uma auréola na qual não penetram a dor ou a revolta.
*
Lençois de neblina subiam dos rios que corriam através da baixada, encrespando-se como densas coroas em volta das montanhas opostas, cujos píncaros perfuravam as nuvens, enquanto a chuva jorrava do céu plúmbeo, aumentando a impressão melancólica que o ambiente exercia sobre mim. Por que - ai de mim! - há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se confinassem à fome, sede e desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena para provocar-nos as mais diversas e inesperadas vocações.
*
Fiquei caminhando pelo aposento, em grande excitação. Arrependi-me de tê-lo deixado partir. Devia ter entrado em luta mortal com ele, opondo à sua força descomunal todo o poder da minha razão.
Retirado do livro Frankenstein, tradutor Éverton Raulph, editora Ediouro.
*
Lençois de neblina subiam dos rios que corriam através da baixada, encrespando-se como densas coroas em volta das montanhas opostas, cujos píncaros perfuravam as nuvens, enquanto a chuva jorrava do céu plúmbeo, aumentando a impressão melancólica que o ambiente exercia sobre mim. Por que - ai de mim! - há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se confinassem à fome, sede e desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena para provocar-nos as mais diversas e inesperadas vocações.
*
Fiquei caminhando pelo aposento, em grande excitação. Arrependi-me de tê-lo deixado partir. Devia ter entrado em luta mortal com ele, opondo à sua força descomunal todo o poder da minha razão.
Retirado do livro Frankenstein, tradutor Éverton Raulph, editora Ediouro.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Trevisan, Dalton
Os pardais o acordam de manhã. "Malditos!" gemendo, enterra a cabeça no travesseiro. Malditos pardais - o dia: mais um dia. Quietinho, morde o lençol, abafa os gritos: "Não acordei, estou dormindo. Não são os pardais, mas os grilos..." Quem dera esganar todos os pardais da cidade.
Cabeça nas mãos, repete sempre - "São os grilos, eis que são os grilos." Em vez de abrir a janela, acende a luz.
Onde a coragem de enfrentar o espelho? Sobreviveu ao pior: já faz a barba. Não mais ver aquela cara e, coçando o queixo, interrogar-se: "Para quê?".
O espelho nunca deu a resposta. Resiste aos dias, com ódio dos pardais. Ah, não piassem com tanta alegria, quem sabe o sol deixasse de nascer.
O queixo ensaboado, xinga-se em voz baixa: "Por que não morre?". Ao frio da navalha, os dedos tremem. Alcança a garrafa, bebe no gargalo. Dos olhos escorrem gotas de amargura, nem sequer lágrimas.
Trecho à cima retirado do livro Novelas Nada Exemplares, conto Quarto de Hotel.
*
Só a obra interessa. O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista. Vampiro sim, de almas. Espião de corações solitários, escorpião de bote armado. Eis o contista. Só invente o vampiro que exista. Com sorte, você adivinha o que não sabe. Para escrever mil novos contos, a vida inteira é curta. Uma história nunca termina. Ela continua depois de você. Um escritor nunca se realiza. A obra é sempre inferior aos sonhos. Fazendo as contas percebe que negou o sonho, traiu a obra, cambiou a vida por nada. O melhor conto só se escreve com tua mão torta, teu avesso, teu coração danado. Todas as histórias, a mesma história, uma nova história. O conto não tem mais fim senão começo. Quem me dera o estilo do suicida em seu último bilhete.
Cabeça nas mãos, repete sempre - "São os grilos, eis que são os grilos." Em vez de abrir a janela, acende a luz.
Onde a coragem de enfrentar o espelho? Sobreviveu ao pior: já faz a barba. Não mais ver aquela cara e, coçando o queixo, interrogar-se: "Para quê?".
O espelho nunca deu a resposta. Resiste aos dias, com ódio dos pardais. Ah, não piassem com tanta alegria, quem sabe o sol deixasse de nascer.
O queixo ensaboado, xinga-se em voz baixa: "Por que não morre?". Ao frio da navalha, os dedos tremem. Alcança a garrafa, bebe no gargalo. Dos olhos escorrem gotas de amargura, nem sequer lágrimas.
Trecho à cima retirado do livro Novelas Nada Exemplares, conto Quarto de Hotel.
*
Só a obra interessa. O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista. Vampiro sim, de almas. Espião de corações solitários, escorpião de bote armado. Eis o contista. Só invente o vampiro que exista. Com sorte, você adivinha o que não sabe. Para escrever mil novos contos, a vida inteira é curta. Uma história nunca termina. Ela continua depois de você. Um escritor nunca se realiza. A obra é sempre inferior aos sonhos. Fazendo as contas percebe que negou o sonho, traiu a obra, cambiou a vida por nada. O melhor conto só se escreve com tua mão torta, teu avesso, teu coração danado. Todas as histórias, a mesma história, uma nova história. O conto não tem mais fim senão começo. Quem me dera o estilo do suicida em seu último bilhete.
sábado, 1 de agosto de 2009
Kane, Sarah
Preciso me tornar quem já sou e bradarei contra esta incongruência que me destinou ao inferno
*
eu achei que era silêncio
até se fazer silêncio
*
Muitas pessoas me conhecem, elas não estão apaixonadas por mim
*
Ela pára com a farsa diária de passar as próximas horas tentando evitar o fato de que ela não sabe como irá passar os próximos quarenta anos.
*
Você só pode se matar se você não estiver morto.
*
Toda a minha vida é uma eterna espera para ver a pessoa por quem estou no momento obcecada, e passo semanas faminta até nosso próximo encontro de quinze minutos.
*
Uma garotinha foi ficando cada vez mais paralisada por causa das brigas frequentemente violentas de seus pais. Às vezes ela ficava horas no banheiro em pé e completamente imóvel, simplesmente porque era lá que por acaso ela estava quando a briga começava. Por fim nos momentos de calma, ela começou a pegar garrafas de leite da geladeira ou da porta de entrada e as deixar em lugares onde mais tarde ela poderia ficar presa. Seus pais não conseguiam entender por que achavam garrafas de leite azedo espalhadas pela casa toda.
*
Não encha meu estômago se você não pode encher meu coração.
*
é da natureza do amor desejar um futuro
*
Num acostamento da estrada saindo da cidade, ou talvez entrando, dependendo de onde você olha, uma garotinha negra está sentada no banco de passageiros de um carro estacionado. Seu velho avô abre o zíper da calça e aquilo salta para fora, grande e roxo.
E quando ela chora, seu pai no banco de trás diz Desculpe, normalmente ela não é assim.
E embora ela não consiga lembrar não consegue esquecer.
*
E se isso não faz sentido então você está entendendo perfeitamente.
*
Eu não bebo. Odeio cigarro. Sou vegetariano. Não fico fodendo por aí. Nunca procurei uma prostituta e nunca tive nenhuma doença sexualmente transmissível além de sapinho. Posso não ser o único, mas que sou uma raridade, isso sou
*
Você até que parece feliz para quem não está
*
Quero dormir ao seu lado e fazer suas compras e carregar suas sacolas e lhe dizer o quanto eu amo estar com você mas eles continuam me obrigando a fazer coisas estúpidas. E eu quero brincar de esconde-esconde e lhe dar minhas roupas e lhe dizer que eu gosto dos seus sapatos e me sentar na escada enquanto você toma banho e massagear seu pescoço e beijar seus pés e segurar sua mão e sair para comer e não me importar quando você comer a minha comida e me encontrar com você no Rudy e falar sobre como foi o dia e datilografar suas cartas e carregar suas caixas e rir da sua paranóia e lhe dar fitas que você não vai ouvir e assistir a bons filmes e assistir a filmes horríveis e reclamar do rádio e tirar fotos de você quando você estiver dormindo e levantar para lhe trazer café e torradas e geléia e ir ao Florent e tomar café à meia-noite e deixá-la roubar meus cigarros e nunca achar os fósforos e contar para você o programa de TV que eu vi na noite passada e ir com você ao oculista e não rir das suas piadas e desejá-la de manhã mas deixá-la dormir mais um pouco e beijar suas costas e acariciar sua pele e lhe dizer o quanto eu amo seu cabelo seus olhos seus lábios seu pescoço seus seios sua bunda suae me sentar na escada e fumar até seu vizinho chegar em casa e me sentar na escada e fumar até você chegar em casa e me preocupar quando você estiver atrasada e me surpreender quando você chegar mais cedo e lhe dar girassóis e ir à sua festa e dançar até não poder mais e me desculpar quando eu estiver errado e ficar feliz quando você me perdoar e olhar suas fotos e desejar tê-la conhecido desde sempre e ouvir sua voz no meu ouvido e sentir sua pele na minha pele e ficar assustado quando você se zangar e um dos seus olhos ficar vermelho e o outro azul e seu cabelo cair para a esquerda e seu rosto parecer oriental e lhe dizer que você é deslumbrante e abraçá-la quando você estiver ansiosa e segurá-la quando você se machucar e desejá-la toda vez que eu sentir seu cheiro e magoá-la quando tocar em você e choramingar quando estiver ao seu lado e choramingar quando não estiver e babar nos seus seios e cobri-la de noite e sentir frio quando você tirar meu cobertor e calor quando você não o tirar e me derreter quando você sorrir e me dissolver quando você gargalhar e não entender por que você acha que eu a estou rejeitando quando eu não a estou rejeitando e me perguntar como você pôde achar que alguma vez eu a rejeitei e me perguntar quem é você e aceitá-la de qualquer jeito e lhe falar sobre o anjo da árvore o menino da floresta encantada que voou através do oceano porque ele a amava e escrever poemas para você e me perguntar por que você não acredita em mim e ter um sentimento tão profundo que eu não consiga encontrar palavras para expressá-lo e querer lhe comprar um gatinho do qual eu ficaria com ciúmes porque você daria mais atenção a ele do que a mim e segurá-la na cama quando você tiver que ir embora e chorar feito criança quando você finalmente for embora e me livrar das pontas e lhe comprar presentes que você não gosta e levá-los de volta e pedi-la em casamento e ouvi-la dizer não mais uma vez mas continuar pedindo porque apesar de você achar que eu não estou falando sério eu sempre falei sério desde a primeira vez que a pedi em casamento e andar pela cidade achando que ela está vazia sem você e querer o que você quiser e achar que estou me perdendo mas saber que estou seguro quando estou com você e lhe contar o que eu tenho de pior e tentar lhe dar o que eu tenho de melhor simplesmente porque é isso que você merece e responder às suas perguntas quando eu teria preferido não responder a elas e lhe dizer a verdade mesmo quando eu não o queira e tentar ser honesto porque eu sei que você prefere assim e achar que está tudo acabado mas demorar-me por mais uns dez minutos ao menos antes de você me expulsar da sua vida e se esquecer de mim e tentar ficar mais perto de você porque é maravilhoso aprender a conhecê-la e vale a pena o esforço e falar muito mal em alemão com você e pior ainda em hebraico e fazer amor com você às três da manhã e de algum modo de algum modo de algum modo expressar um pouco deste esmagador imortal irresistível incondicional envolvente revigorante vivificante ininterrupto infindável amor que eu sinto por você.
*
Daqui um ou dois dias eu vou voltar para o meu outro caso, embora este caso esteja durando tanto que quase parece um relacionamento.
*
não diga não para mim você não pode dizer não para mim porque é um alívio tão grande amar de novo e deitar na cama e ser abraçado e tocado e beijado e adorado e seu coração saltará quando você ouvir minha voz e vir meu sorriso e sentir minha respiração no seu pescoço e seu coração vai disparar quando eu quiser vê-la e eu mentirei para você desde o primeiro dia e a usarei e penetrarei em você e partirei seu coração porque você partiu o meu primeiro e você me amará mais a cada dia até o peso se tornar insuportável e a sua vida se tornar minha e você morrerá sozinha porque eu levarei o que quiser então irei embora sem lhe dever nada está sempre lá sempre esteve lá e você não pode negar a vida que você sente foda-se a vida foda-se a vida foda-se a vida agora que eu a perdi
*
Agora que eu te encontrei posso parar de me procurar
*
M – Você ouve vozes?
B – Só quando falam comigo.
A – Almas exaustas com bocas secas.
*
Eu não estou doente, só sei que a vida não vale a pena ser vivida.
*
O círculo é a única forma geométrica definida pelo seu centro. Aqui não tem essa de galinha e ovo, o centro veio primeiro, a circunferência vem depois. A terra, por definição, tem um centro. E só o idiota que o conhece é que pode ir aonde quiser, pois o centro vai mantê-lo no chão, impedindo-o de sair da órbita. Mas quando sua sensação do centro se desloca, vem zunindo para a superfície, o equilíbrio já era. O equilíbrio já era. O equilíbrio meu bem já era.
*
Eu costumo conseguir chorar mas agora estou além das lágrimas
*
a única médica que me tocou voluntariamente, que olhou nos meus olhos, que riu do meu humor mórbido falado numa voz vinda de dentro do meu túmulo recém-cavado, que tirou um sarro quando eu raspei minha cabeça, que mentiu e disse que era legal me ver. Que mentiu. E disse que era legal me ver. Eu confiei em você, eu amei você, e não é perder você que me machuca, mas sim sua falsidade fodida e descarada que se mascara em notas médicas.
*
- Você despreza todas as pessoas infelizes ou só especificamente a mim?
- Eu não desprezo você. Você não tem culpa. Você está doente.
- Eu não acho.
- Não?
- Não. Estou deprimida. Depressão é ódio. É o que você fez, você que estava lá e que está se culpando.
- E quem você está culpando?
- A mim mesma.
*
Às vezes eu me viro e sinto o cheiro de você e eu não posso seguir eu não posso seguir foda-se sem expressar essa terrível tão fodidamente horrorosa física dolorosa fodida saudade que eu tenho de você. E eu não posso acreditar que posso sentir isso por você e você não sente nada. Você não sente nada?
*
Eu nunca na minha vida tive problema em dar a outras pessoas o que elas querem. Mas ninguém jamais foi capaz de fazer isso por mim. Ninguém me toca, ninguém se aproxima de mim. Mas agora você me tocou em algum lugar tão fodidamente profundo que eu não consigo acreditar e eu não consigo ser assim para você. Porque eu não consigo te achar.
*
- Por favor. Não desligue minha mente na tentativa de me curar. Ouça e entenda, e quando sentir desprezo não o expresse, pelo menos não verbalmente, pelo menos não para mim.
*
Eu não me matei antes então não procure precedentes
*
eu não tenho nenhum desejo da morte
nenhum suicida jamais teve
*
Ela está falando dela mesma na terceira pessoa porque a idéia de ser quem ela é, de reconhecer que ela é ela mesma, é mais do que seu orgulho pode suportar
*
Sou eu mesma que eu nunca encontrei, cuja face está colada no lado inferior da minha mente
retirado dos textos Crave e Piscicose 448
*
eu achei que era silêncio
até se fazer silêncio
*
Muitas pessoas me conhecem, elas não estão apaixonadas por mim
*
Ela pára com a farsa diária de passar as próximas horas tentando evitar o fato de que ela não sabe como irá passar os próximos quarenta anos.
*
Você só pode se matar se você não estiver morto.
*
Toda a minha vida é uma eterna espera para ver a pessoa por quem estou no momento obcecada, e passo semanas faminta até nosso próximo encontro de quinze minutos.
*
Uma garotinha foi ficando cada vez mais paralisada por causa das brigas frequentemente violentas de seus pais. Às vezes ela ficava horas no banheiro em pé e completamente imóvel, simplesmente porque era lá que por acaso ela estava quando a briga começava. Por fim nos momentos de calma, ela começou a pegar garrafas de leite da geladeira ou da porta de entrada e as deixar em lugares onde mais tarde ela poderia ficar presa. Seus pais não conseguiam entender por que achavam garrafas de leite azedo espalhadas pela casa toda.
*
Não encha meu estômago se você não pode encher meu coração.
*
é da natureza do amor desejar um futuro
*
Num acostamento da estrada saindo da cidade, ou talvez entrando, dependendo de onde você olha, uma garotinha negra está sentada no banco de passageiros de um carro estacionado. Seu velho avô abre o zíper da calça e aquilo salta para fora, grande e roxo.
E quando ela chora, seu pai no banco de trás diz Desculpe, normalmente ela não é assim.
E embora ela não consiga lembrar não consegue esquecer.
*
E se isso não faz sentido então você está entendendo perfeitamente.
*
Eu não bebo. Odeio cigarro. Sou vegetariano. Não fico fodendo por aí. Nunca procurei uma prostituta e nunca tive nenhuma doença sexualmente transmissível além de sapinho. Posso não ser o único, mas que sou uma raridade, isso sou
*
Você até que parece feliz para quem não está
*
Quero dormir ao seu lado e fazer suas compras e carregar suas sacolas e lhe dizer o quanto eu amo estar com você mas eles continuam me obrigando a fazer coisas estúpidas. E eu quero brincar de esconde-esconde e lhe dar minhas roupas e lhe dizer que eu gosto dos seus sapatos e me sentar na escada enquanto você toma banho e massagear seu pescoço e beijar seus pés e segurar sua mão e sair para comer e não me importar quando você comer a minha comida e me encontrar com você no Rudy e falar sobre como foi o dia e datilografar suas cartas e carregar suas caixas e rir da sua paranóia e lhe dar fitas que você não vai ouvir e assistir a bons filmes e assistir a filmes horríveis e reclamar do rádio e tirar fotos de você quando você estiver dormindo e levantar para lhe trazer café e torradas e geléia e ir ao Florent e tomar café à meia-noite e deixá-la roubar meus cigarros e nunca achar os fósforos e contar para você o programa de TV que eu vi na noite passada e ir com você ao oculista e não rir das suas piadas e desejá-la de manhã mas deixá-la dormir mais um pouco e beijar suas costas e acariciar sua pele e lhe dizer o quanto eu amo seu cabelo seus olhos seus lábios seu pescoço seus seios sua bunda suae me sentar na escada e fumar até seu vizinho chegar em casa e me sentar na escada e fumar até você chegar em casa e me preocupar quando você estiver atrasada e me surpreender quando você chegar mais cedo e lhe dar girassóis e ir à sua festa e dançar até não poder mais e me desculpar quando eu estiver errado e ficar feliz quando você me perdoar e olhar suas fotos e desejar tê-la conhecido desde sempre e ouvir sua voz no meu ouvido e sentir sua pele na minha pele e ficar assustado quando você se zangar e um dos seus olhos ficar vermelho e o outro azul e seu cabelo cair para a esquerda e seu rosto parecer oriental e lhe dizer que você é deslumbrante e abraçá-la quando você estiver ansiosa e segurá-la quando você se machucar e desejá-la toda vez que eu sentir seu cheiro e magoá-la quando tocar em você e choramingar quando estiver ao seu lado e choramingar quando não estiver e babar nos seus seios e cobri-la de noite e sentir frio quando você tirar meu cobertor e calor quando você não o tirar e me derreter quando você sorrir e me dissolver quando você gargalhar e não entender por que você acha que eu a estou rejeitando quando eu não a estou rejeitando e me perguntar como você pôde achar que alguma vez eu a rejeitei e me perguntar quem é você e aceitá-la de qualquer jeito e lhe falar sobre o anjo da árvore o menino da floresta encantada que voou através do oceano porque ele a amava e escrever poemas para você e me perguntar por que você não acredita em mim e ter um sentimento tão profundo que eu não consiga encontrar palavras para expressá-lo e querer lhe comprar um gatinho do qual eu ficaria com ciúmes porque você daria mais atenção a ele do que a mim e segurá-la na cama quando você tiver que ir embora e chorar feito criança quando você finalmente for embora e me livrar das pontas e lhe comprar presentes que você não gosta e levá-los de volta e pedi-la em casamento e ouvi-la dizer não mais uma vez mas continuar pedindo porque apesar de você achar que eu não estou falando sério eu sempre falei sério desde a primeira vez que a pedi em casamento e andar pela cidade achando que ela está vazia sem você e querer o que você quiser e achar que estou me perdendo mas saber que estou seguro quando estou com você e lhe contar o que eu tenho de pior e tentar lhe dar o que eu tenho de melhor simplesmente porque é isso que você merece e responder às suas perguntas quando eu teria preferido não responder a elas e lhe dizer a verdade mesmo quando eu não o queira e tentar ser honesto porque eu sei que você prefere assim e achar que está tudo acabado mas demorar-me por mais uns dez minutos ao menos antes de você me expulsar da sua vida e se esquecer de mim e tentar ficar mais perto de você porque é maravilhoso aprender a conhecê-la e vale a pena o esforço e falar muito mal em alemão com você e pior ainda em hebraico e fazer amor com você às três da manhã e de algum modo de algum modo de algum modo expressar um pouco deste esmagador imortal irresistível incondicional envolvente revigorante vivificante ininterrupto infindável amor que eu sinto por você.
*
Daqui um ou dois dias eu vou voltar para o meu outro caso, embora este caso esteja durando tanto que quase parece um relacionamento.
*
não diga não para mim você não pode dizer não para mim porque é um alívio tão grande amar de novo e deitar na cama e ser abraçado e tocado e beijado e adorado e seu coração saltará quando você ouvir minha voz e vir meu sorriso e sentir minha respiração no seu pescoço e seu coração vai disparar quando eu quiser vê-la e eu mentirei para você desde o primeiro dia e a usarei e penetrarei em você e partirei seu coração porque você partiu o meu primeiro e você me amará mais a cada dia até o peso se tornar insuportável e a sua vida se tornar minha e você morrerá sozinha porque eu levarei o que quiser então irei embora sem lhe dever nada está sempre lá sempre esteve lá e você não pode negar a vida que você sente foda-se a vida foda-se a vida foda-se a vida agora que eu a perdi
*
Agora que eu te encontrei posso parar de me procurar
*
M – Você ouve vozes?
B – Só quando falam comigo.
A – Almas exaustas com bocas secas.
*
Eu não estou doente, só sei que a vida não vale a pena ser vivida.
*
O círculo é a única forma geométrica definida pelo seu centro. Aqui não tem essa de galinha e ovo, o centro veio primeiro, a circunferência vem depois. A terra, por definição, tem um centro. E só o idiota que o conhece é que pode ir aonde quiser, pois o centro vai mantê-lo no chão, impedindo-o de sair da órbita. Mas quando sua sensação do centro se desloca, vem zunindo para a superfície, o equilíbrio já era. O equilíbrio já era. O equilíbrio meu bem já era.
*
Eu costumo conseguir chorar mas agora estou além das lágrimas
*
a única médica que me tocou voluntariamente, que olhou nos meus olhos, que riu do meu humor mórbido falado numa voz vinda de dentro do meu túmulo recém-cavado, que tirou um sarro quando eu raspei minha cabeça, que mentiu e disse que era legal me ver. Que mentiu. E disse que era legal me ver. Eu confiei em você, eu amei você, e não é perder você que me machuca, mas sim sua falsidade fodida e descarada que se mascara em notas médicas.
*
- Você despreza todas as pessoas infelizes ou só especificamente a mim?
- Eu não desprezo você. Você não tem culpa. Você está doente.
- Eu não acho.
- Não?
- Não. Estou deprimida. Depressão é ódio. É o que você fez, você que estava lá e que está se culpando.
- E quem você está culpando?
- A mim mesma.
*
Às vezes eu me viro e sinto o cheiro de você e eu não posso seguir eu não posso seguir foda-se sem expressar essa terrível tão fodidamente horrorosa física dolorosa fodida saudade que eu tenho de você. E eu não posso acreditar que posso sentir isso por você e você não sente nada. Você não sente nada?
*
Eu nunca na minha vida tive problema em dar a outras pessoas o que elas querem. Mas ninguém jamais foi capaz de fazer isso por mim. Ninguém me toca, ninguém se aproxima de mim. Mas agora você me tocou em algum lugar tão fodidamente profundo que eu não consigo acreditar e eu não consigo ser assim para você. Porque eu não consigo te achar.
*
- Por favor. Não desligue minha mente na tentativa de me curar. Ouça e entenda, e quando sentir desprezo não o expresse, pelo menos não verbalmente, pelo menos não para mim.
*
Eu não me matei antes então não procure precedentes
*
eu não tenho nenhum desejo da morte
nenhum suicida jamais teve
*
Ela está falando dela mesma na terceira pessoa porque a idéia de ser quem ela é, de reconhecer que ela é ela mesma, é mais do que seu orgulho pode suportar
*
Sou eu mesma que eu nunca encontrei, cuja face está colada no lado inferior da minha mente
retirado dos textos Crave e Piscicose 448
Assinar:
Postagens (Atom)